O Giovanni. A Torcida pelo Papão. O Início na Tuna. A Trajetória no Remo. O Único Gol no Re x Pa. O “Messias” do Santos


 

Não é novidade pra ninguém que o ex-jogador paraense Giovanni, ídolo do Santos, é torcedor do Paysandu. Mas foi na Tuna e no Remo que o “Messias” fez história no futebol paraense. O jogador iniciou no futebol aos 6 anos de idade, no time mirim de futebol de salão do Remo. Mais tarde ele ainda teria nova passagem pelo futsal remista, entre os 11 e os 16 anos. Após a transferência de seu pai, servidor do Departamento de Estradas de Rodagem, para Abaetetuba, passou a jogar em pequenos clubes da cidade, incluindo o Jaderlândia, Tok Disco e Palmeiras. uma vez famoso, chegaria a contribuir com um dos principais times locais, o Vênus.

Chegou às divisões de base da Tuna Luso em 1990, descoberto após jogar contra ela no ano anterior pelo Palmeiras de Abaetetuba. Nos dois anos em que esteve na base tunante, marcou 50 gols, que lhe renderiam um prêmio chuteira de ouro da Federação Paraense de Futebol. Na condição de campeã paraense de futebol de juniores de 1990, o clube participou da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 1991. Em 1992, participou do tetracampeonato estadual na categoria sub-23, campanha na qual Giovanni chegou a marcar dois gols em vitória de 5–1 no clássico com o Remo, na decisão do primeiro turno. 

Na penúltima rodada do segundo turno, houve um clássico com o Paysandu, dérbi em que Giovanni abriu de pênalti o placar e forneceu assistência para o segundo gol do triunfo por 3–1, em data especialmente festiva: além do tetracampeonato sub-23 ficar bastante encaminhado, naquele mesmo dia a equipe adulta da Tuna venceu o campeonato brasileiro da terceira divisão daquele ano.

Giovanni estreou no time profissional da Tuna em 6 de julho de 1992, já após a campanha cruzmaltina campeã nacional, encerrada no mês anterior. A estreia foi em jogo contra o CSA, no Estádio Evandro Almeida, pela Copa do Brasil de 1992. Giovanni, que não tinha chances com o treinador Nélio Pereira, foi usado como titular pelo novo treinador, Fernando Oliveira, e terminou sendo o melhor em campo: marcou os dois gols da vitória de virada por 2–1. Fernando Oliveira era o mesmo treinador que lhe "descobria" ao enfrentar o Palmeiras em 1989 e, como jogador, havia sido um zagueiro ídolo na própria Tuna. Aquela foi a estreia também do clube na própria história da Copa do Brasil, da qual só participou também em 2003. Apesar do ótimo debute de Giovanni, a equipe terminou eliminada no jogo de volta, em Alagoas, onde foi derrotada por 4–0.

No segundo semestre de 1992, quando foi realizado o campeonato paraense daquele ano, seguiu se destacando: naquela edição, Giovanni marcou 17 gols, em bela dupla com Ageu Sabiá, que fez 18. Giovanni chegou a marcar 5 em um único jogo, em um 8–0 contra o Tiradentes, até recebendo 200 mil cruzeiros de um incontido torcedor tunante. Em um dos clássicos contra o Paysandu, marcou certa vez o gol da vitória em um 1–0 naquele Parazão, conquistado pelo adversário.

1993 - Apesar do bom momento individual na Tuna, a recente conquista do clube na terceira divisão de 1992 viera com campanha financeiramente deficitária a ponto de o departamento de futebol tunante ter sua própria extinção cogitada em 1993. Nesse ano, Giovanni manifestou desejo de jogar em outro clube. Inicialmente, o presidente tunante Genésio Mangini conseguiu espaço na equipe portuguesa do Vitória de Guimarães, na pré-temporada dos torneios europeus de 1993-94. 

Giovanni passou 15 dias em Portugal, mas foi restrito a amistosos, sem emplacar; segundo ele, não firmou-se por ser usado como centroavante pelo treinador,  Bernardito Pedroto. Giovanni não seria o tipo de jogador pretendido e um desacordo financeiro também impediu a transferência. Outra razão para ela acabar descartada foi a preferência do Vitória por priorizar a contratação do esloveno Zlatko Zahovič, curiosamente futuro colega de Giovanni no Olympiacos.

Com a recusa do Vitória, Giovanni terminou então emprestado ao Remo, que jogaria no segundo semestre a elite do Brasileirão; esse clube, ainda sem Giovanni, havia acabado de voltar a ser campeão paraense de 1993. O "Leão Azul" havia adquirido por empréstimo diversos outros jogadores da Tuna, a exemplo de Ageu Sabiá. O campeonato brasileiro começou em 4 de setembro e Giovanni inicialmente ausentou-se das primeiras quatro partidas, realizadas na primeira quinzena daquele mês; ele apareceu pela primeira vez na sexta rodada, substituindo o próprio Ageu aos 9 minutos do segundo tempo e abriu, já aos 42, o placar de 2–0 sobre o Ceará, em 26 de setembro, no Baenão.

Também marcou nos dois jogos seguintes: também no Baenão, fez o terceiro gol dos 6–0 sobre o Fortaleza, aos 43 minutos, em 29 de setembro; depois, em 6 de outubro, no Mangueirão, abriu o placar de 1–1 no Re-Pa, aos 37 minutos. Por esses jogos, recebeu uma nota 6, uma nota 7,5 e novamente nota 6 na avaliação da revista Placar, com um início considerado interessante pelos três gols em três jogos. Aquele clássico com o Paysandu segue sendo o último já realizado na primeira divisão do Brasileirão; no lance do seu gol, Giovanni cabeceou quase embaixo da rede uma bola cruzada, por Alex Dias. 

Depois de outras duas partidas, Giovanni marcou seu quarto gol pelo Remo, em triunfo de 2–0 em 17 de outubro no Baenão sobre o Vitória, futuro vice-campeão daquele Brasileirão. Fez aos 22 minutos do segundo tempo o segundo gol azulino que Dida sofreu na ocasião. Porém, Giovanni gradualmente iniciou uma longa fase de fortes críticas, embora os colegas encaminhassem uma ótima campanha, terminando em oitavo, na melhor performance de um clube da Região Norte do Brasil na elite nacional.

Ao longo da má fase individual, Giovanni passou a ser rotineiramente xingado pelos torcedores azulinos de "preguiçoso", "lento","enganador", "lesma" e afins. Outras críticas apontavam até que parecia a tremer em campo Cézar Magalhães, jornalista que lhe acompanhava desde 1989, defendeu-o em 1995 afirmando que "no Remo, colocaram o Giovanni como atacante fixo. Um erro. Ele sempre foi armador que vai ao ataque". O quinto e último gol de Giovanni pelo "Leão Azul" se deu após quase dois meses depois do anterior. Foi em 5 de dezembro, empatando momentaneamente em 1–1 um minuto após o Guarani ter aberto o marcador, em Campinas, pela penúltima rodada do quadrangular-semifinal. Todavia, os paraenses terminaram sofrendo derrota vexaminosa de 8–2. 

Embora o tempo restaurasse entre os remistas um orgulho pelo oitavo lugar e presença na fase semifinal, tal goleada, naquele momento, manchou fortemente a campanha. Giovanni só jogou mais uma vez como azulino, precisamente na rodada final do quadrangular, no 0–0 com o futuro campeão Palmeiras. A despeito dos cinco gols terem bastado para Giovanni ser o vice-artilheiro do elenco, terminou desaprovado pela torcida do Remo.

1994 - O Remo aceitou pagar somente metade do valor entre 150 mil e 200 mil dólares cobrados pela Tuna para a venda definitiva dos jogadores emprestados e os dirigentes tunantes optaram por repassa-los ao Paysandu, no início de 1994. Giovanni também não agradou a torcida do arquirrival, sendo derrotado em dois Re-Pas na pré-temporada de 1994 pelo "Torneio Pará Ceará" (por 1–0 e 4–3), com atuações descritas como ainda abaixo das que costumava exibir pela Tuna. 

Marcou apenas um gol pelo "Papão", naquele mesmo torneio, em vitória de 2–1 sobre o Fortaleza em 3 de fevereiro. Sua carreira pelos dois principais clubes do seu Estado natal foi definida como "periclitante", chegando a fazer-lhe pensar em largar o futebol e tornar-se técnico em eletrônica; seu contrato com a Tuna vencia naqueles dias e Giovanni inicialmente não chegava a um entendimento com o presidente cruzmaltino sobre alguma chance de renovação.

A renovação terminou acertada com a concordância de Giovanni em ser emprestado ao Sãocarlense, cujo emissário local Mauro Morishita havia avaliado bem o jogador. Por essa equipe do interior interior paulista, Giovanni chamou atenção depois de uma boa exibição contra o Palmeiras, que se interessou por sua contratação. Giovanni realizou testes no clube alviverde, mas sentiu a mudança de clima e contraiu um resfriado. Aborrecido ao ser esquecido pelo clube em um hotel, decidiu voltar a Belém sem autorização do Palmeiras e da Tuna - e, assim, provocou a desistência do time paulistano em contratá-lo.

“Meu contrato com a Tuna tinha terminado. Tive um problema com o presidente (da Tuna) e ele me disse que tinha um clube de São Paulo para eu jogar emprestado, mas que só faria isso se eu renovasse. Topei. Fui para o Sãocarlense e fiquei dois meses lá, mas a campanha não foi muito boa na Série A2. Até que meu último jogo foi transmitido pela TV. Foi quando o presidente do Santos me viu jogando, e essa partida selou a minha contratação.”

Inicialmente regressado à Tuna ao encerrar o vínculo com o Sãocarlense, Giovanni chegou a participar das três rodadas iniciais disputadas pelos cruzmaltinos na segunda divisão brasileira de 1994, todas na primeira quinzena de agosto. Todas foram fora do Pará, sem vitórias e sem gols do meia-atacante: 1–1 contra o América de Natal e derrotas de 2–1 para Central de Caruaru e de 2–0 para o Ceará. Mas o Santos, que também estava abertamente interessado em Giovanni desde aquela partida televisionada do Sãocarlense, manteve a procura e conseguiu seu empréstimo.

Rivalidades - Nas rivalidades paraenses, além do seu único gol no clássico Re-Pa, pelo Brasileirão de 1993, Giovanni acumulou dois no Pa-Tu (na vitória de 1–0 pelo campeonato estadual de 1992, em 30 de agosto; e em 1–1 amistoso em 16 de fevereiro de 1993)) e outro no Re-Tu, em 30 de maio de 1993, em triunfo tunante por 1–0 pelo estadual. Ao todo, Giovanni jogou vinte vezes na Seleção Brasileira de Futebol, considerando os amistosos não-oficiais com o Athletic Bilbao e contra o Barcelona. Marcou seis gols. Embora não tenha sido duradouro na seleção, ela nunca perdeu um jogo com ele em campo.

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