
O governo Lula obteve decisões favoráveis em cerca de 89% das ações julgadas pelo STF entre 2023 e 2024. De 111 ações em que a AGU se manifestou, 99 resultaram em vitórias para o Planalto. Em 2024, pelo menos 11 decisões importantes do Supremo geraram economia superior a R$ 1 trilhão para a União. Alexandre de Moraes foi peça central nessa relação quase umbilical. Xandão validou sozinho, no ano passado, o decreto presidencial que aumentava as alíquotas do IOF, derrubando a decisão do Congresso. Foi relator da ação que condenou Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão e rejeitou todos os recursos da defesa. Quando os Estados Unidos aplicaram sanções via Lei Magnitsky contra Moraes, Lula convocou jantar no Palácio da Alvorada com ministros do STF. Emitiu nota afirmando que a sanção era “inaceitável” e que foi articulada por “políticos brasileiros que traem nossa pátria”.
Lula foi grato pela prisão do principal adversário, invertendo a lógica da eleição de 2018 em que foi preso e impedido de disputar, mas a gratidão durou até o escritório de Viviane Barci de Moraes aparecer com R$ 80,2 milhões do Banco Master na conta. As explicações do casal ainda são, no mínimo, insuficientes. Em Brasília, gratidão tem limite. Lula agora diz que aconselhou Xandão a se declarar impedido de julgar o caso envolvendo o cliente milionário da família Moraes. Conselho em público expõe o aliado e tenta blindar quem fala. Foi ainda mais explícito, dizendo “você construiu uma biografia histórica neste país com o julgamento do 8 de Janeiro. Não permita que esse caso do Vorcaro jogue fora sua biografia.” Como assim? Que biografia decente pode ter um ministro que se envolve com bandido?
Ao mesmo tempo, Lula escolheu o bode expiatório-geral da República: “Nós temos que pegar a bandidagem do Vorcaro.” E deixou o recado geral: “Se tem algum membro que cometeu um desvio, esse cidadão que pague pelo desvio.”. As críticas ao STF são hoje a principal força unificadora da direita no país. Quem conhece Lula reconhece o padrão. Quando um aliado vira passivo tóxico, solta a mão. Não importa o grau de intimidade, o tempo de convivência, o tamanho da dívida política. No mensalão, em 2005, soubemos que o PT pagava mesadas a deputados da base aliada em troca de votos no Congresso. Lula se declarou vítima.
“Eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais eu não tinha conhecimento.”
José Dirceu, seu braço esquerdo e o homem mais poderoso do primeiro mandato, foi demitido. José Genoino renunciou à presidência do PT. Delúbio Soares foi classificado como executor de práticas “equivocadas”. Silvio Pereira sumiu da vida pública. Todos amigos próximos, todos abandonados. Lula escapou de condenações do impeachment e ainda foi reeleito, vencendo seu atual vice-presidente. As voltas que o mundo dá…
A Lava Jato mostrou uma versão ainda mais agressiva de um Lula que não aceita abraço de afogado. José Carlos Bumlai era o “amigo de todas as horas”. Pecuarista do Mato Grosso do Sul, frequentava o sítio de Atibaia, emprestava dinheiro para a família. Quando a Polícia Federal começou a investigar, Lula rebaixou Bumlai para “conhecido” nos depoimentos oficiais. Empurrou parte da responsabilidade para a esposa Marisa Letícia, que já havia falecido e não podia refutar.
Léo Pinheiro, presidente da OAS, detalhou em depoimento uma conta-corrente de propinas ligada ao triplex do Guarujá. Lula respondeu que o empresário era mentiroso, que seu depoimento fora “ajustado” pelos procuradores. O caso mais emblemático foi de Antonio Palocci. Ex-ministro da Fazenda, amigo e cérebro econômico do primeiro mandato de Lula, Palocci fez delação premiada e confirmou um “pacto de sangue” com a Odebrecht. Lula chamou Palocci de “frio, calculista e simulador”, capaz de criar “uma mentira mais verdadeira que a verdade”.
Nem a família escapou. O Ministério Público acusou Lula de tráfico de influência para beneficiar o sobrinho Taiguara Rodrigues em contratos da Odebrecht em Angola. A defesa reduziu tudo a “conselhos de tio”. Luís Cláudio, filho de Lula, recebeu R$ 2,5 milhões de lobistas ligados à compra dos caças Gripen pela FAB. Lula disse que era um negócio privado, sem relação com ele. Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, apareceu nas investigações sobre desvios em aposentadorias do INSS. O Careca do INSS, Antônio Carlos Camilo Antunes, teria dado até uma mesada de R$ 300 mil a ele, entre outras vantagens, o que a defesa nega.
“Se tiver filho meu envolvido em fraude, será investigado”, disse Lula.
Com Dias Toffoli, que o próprio Lula nomeou para o Supremo, a ruptura já é definitiva. Ele nunca perdoou Toffoli por ter impedido sua ida ao velório do irmão Genival durante a prisão em Curitiba. Não vai mexer uma palha para salvar seu ex-advogado. Maquiavel contou que Cesare Borgia usou seu ministro Ramiro de Lorqua para impor medidas impopulares na Romagna. Quando o desgaste de Lorqua ameaçou contaminar o chefe, Borgia mandou executar o ex-auxiliar em praça pública. O corpo foi exposto partido ao meio. Borgia saiu como líder justo e isento. Jesus disse que “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos”. Entre Maquiavel e Cristo, você sabe quem Lula vai escolher…
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