Ananindeua. A Upa da Cidade Nova. O Jovem. A Infecção Dentária. O Descaso e a Morte. O Hospital Santa Maria. As Cifras de R$ 108 Milhões
A manhã desta segunda-feira (11) em Ananindeua não foi apenas de luto, mas de profunda indignação. A morte de Luiz Felipe Duarte, de apenas 18 anos, após 15 dias de espera por uma transferência na UPA da Cidade Nova, tornou-se o símbolo mais recente de um sistema de saúde que, sob o verniz da propaganda da gestão anterior, esconde feridas profundas de negligência e má gestão de recursos. O que começou com uma infecção dentária terminou em tragédia.
Segundo relatos da família, Luiz Felipe deu entrada na unidade apresentando um quadro que exigia suporte especializado. Em um vídeo comovente que circula nas redes sociais, a mãe do jovem faz um apelo desesperado, convidando a imprensa e a população a verem de perto a precariedade do atendimento. "Eu recorri para cá, porque eu pensei que eles iam me dar suporte, mas eu não estou vendo isso. Tudo eu tenho que trazer da minha casa", desabafa a mãe, apontando que o filho foi "deixado para morrer" sem o atendimento necessário.
Informações de bastidores e relatos da equipe de reportagem que acompanhou o caso indicam que o pedido de transferência urgente sequer teria sido processado a tempo pela administração da unidade, evidenciando uma falha gravíssima no fluxo de regulação municipal. A incapacidade da UPA em salvar Luiz Felipe encontra explicação nas cifras astronômicas investigadas pela Operação Hades. Enquanto pacientes agonizam em corredores, o Ministério Público do Pará (MPPA) detalha como a saúde de Ananindeua teria sido convertida em um esquema de enriquecimento ilícito durante a era Daniel Santos.
Auditorias revelaram que o Hospital Santa Maria,ligado ao ex-prefeito, chegava a faturar insumos básicos por preços irreais, como agulhas vendidas a R$ 18,00 a unidade. O Gaeco aponta um uso "descomunal" de materiais para justificar repasses vultosos. No período investigado (2018-2022), o lucro líquido do Hospital Santa Maria saltou de R$ 3 milhões para impressionantes R$ 108,5 milhões. Para os promotores, esse crescimento de 838% não foi fruto de eficiência, mas de um suposto esquema que drenou R$ 261,3 milhões dos cofres da saúde.
O MPPA apura se a estrutura da Secretaria de Saúde foi utilizada para priorizar repasses ao hospital da família do ex-prefeito, em detrimento do investimento nas UPAs municipais, onde hoje falta o básico para garantir transferências e salvar vidas.
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