Pernambuco. A Governadora Raquel Lyra. O Avião e o Uso Indevido


 

A aeronave Beechcraft King Air 260 comprada pelo Governo de Pernambuco com a justificativa de reforçar o atendimento aeromédico passou a ser usada, em diferentes ocasiões, para deslocar a governadora Raquel Lyra (PSD) em agendas oficiais e compromissos políticos, segundo informações divulgadas pelo próprio governo e registros citados no texto original.

Adquirido semi-novo por R$ 64,3 milhões em julho de 2025, o turboélice que é o mais popular do mundo foi acomprado com recursos da Secretaria de Defesa Social, e tem matrícula PS-GEP além de ter as siglas da secretaria na sua fuselagem. Na ocasião de sua apresentação, o Grupamento Tático Aéreo de Pernambuco destacou que a aeronave ampliaria o atendimento aeromédico no estado.

Pouco depois da entrega, porém, o equipamento médico foi temporariamente retirado para permitir o uso da aeronave no transporte da governadora até Brasília, como aponta apuramento feito pela Folha de São Paulo, mídia parceira do AEROIN. Na capital federal, Raquel Lyra se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e com o presidente do PSD, Gilberto Kassab. Enquanto isso, o governo precisou recorrer a uma empresa de táxi aéreo, a Easy, para realizar o transporte de um paciente e uma captação de órgãos para transplante, operações que somaram cerca de R$ 100 mil. Este táxi aéreo também utiliza aviões King Air para a mesma missão aeromédica.

A licitação que viabilizou a compra previa uma aeronave multimissão, com possibilidade de uso para transporte de autoridades, forças de segurança, órgãos, pacientes e ações de defesa civil. O termo de referência também exigia a instalação de um kit aeromédico para resgate e transporte de pacientes, avaliado em quase R$ 400 mil, segundo dados do Portal da Transparência. Em publicação institucional, o Grupamento Tático Aéreo afirmou, à época, que a aeronave garantiria mais agilidade e segurança em missões aeromédicas. Em vídeo divulgado pelo órgão, um representante da operação também ressaltou que o novo avião ampliaria o atendimento dentro e fora do estado, substituindo uma aeronave de menor porte.

O primeiro uso da aeronave pela governadora ocorreu poucos dias após a entrega. Em 15 de dezembro, um despacho oficial informou a retirada dos equipamentos médicos e a preparação do avião para transporte VIP, expressão também usada na documentação de compra. No dia seguinte, Raquel Lyra esteve no Palácio do Planalto para assinar uma parceria público-privada voltada à recuperação do Metrô do Recife e participou de outras agendas políticas em Brasília.

Dias depois, em 18 de dezembro, ela seguiu para São Paulo, onde participou do leilão da concessão dos serviços de saneamento básico, e retornou a Brasília para um encontro com prefeitos pernambucanos. Em maio, o histórico de voos voltou a coincidir com compromissos da governadora na capital federal, incluindo a Marcha dos Prefeitos e um jantar com deputados do PSD e aliados. Já entre 21 e 23 de maio, a aeronave foi usada em deslocamentos ligados a agendas no sertão de Pernambuco. Nesse período, a governadora participou de anúncios e entregas de obras na região, com registros de voos partindo do Recife em direção a pistas do interior do estado.

Questionado sobre o uso da aeronave, o Governo de Pernambuco afirmou que os aviões da frota estadual são empregados apenas em missões institucionais de interesse público, com base em critérios técnicos, operacionais e legais. A gestão também declarou que não houve prejuízo às ações de saúde e segurança e que os deslocamentos de Raquel Lyra ocorrem majoritariamente em voos comerciais. Em nota, o Executivo estadual informou ainda que, desde o início da atual gestão, foram registrados 158 trechos aéreos, com economia estimada em R$ 880 mil. O governo acrescentou que, entre 2020 e 2023, foram liquidados R$ 1,6 milhão em contratos de táxi aéreo referentes ao período anterior, de 2019 a 2022. Segundo a administração estadual, 45 trechos foram realizados em aeronaves oficiais para agendas institucionais, sem prejuízo às operações aeromédicas, já que outras aeronaves permaneceriam disponíveis para esse tipo de atendimento.

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