Dando continuidade ao escândalo envolvendo delegados, promotores e advogados do Pará — revelados em uma grande investigação do Ministério Público paraense —, O Antagônico publica hoje a primeira parte do episódio envolvendo a influenciadora Noelle Araújo. Com base nos elementos coletados pelo MP, ficou evidenciado que o delegado Arthur Nobre, entre 2023 e 2024, solicitou e recebeu vantagem indevida no valor de R$ 350 mil, pagos pela nacional Noelle Maria de Araújo Lopes, valendo-se do cargo público ocupado por ele e por outros integrantes do grupo criminoso. De acordo com o MP, Arthur Nobre associou-se diretamente ao delegado Carlos Daniel Fernandes de Castro e ao promotor de justiça Luiz Márcio Teixeira Cypriano, criando investigações e medidas judiciais constritivas como mecanismo destinado a obter bens e valores da influenciadora. Atuaram como intermediários os advogados Edimar Lira Aguiar Filho, Caio José Cavalleiro de Macedo Ferraz e Afonso Filipe Pereira da Silva. Auxiliaram na ocultação de valores oriundos da prática criminosa as nacionais Andreza Maia de Souza (principal responsável pela contabilidade da propina e operadora financeira) e Renata Gomes de Araújo (esposa do promotor Luiz Márcio Teixeira Cypriano). O conjunto de evidências demonstra que a solicitação da vantagem indevida a Noelle Araújo foi feita pelo delegado Arthur Nobre por intermédio do advogado Edimar Filho.
Conforme constam nos autos, no dia 18 de dezembro de 2023 — data da deflagração da Operação "Truque de Mestre" —, o advogado Edimar Filho, então defensor de Noelle Araújo, entrou em contato com o delegado Arthur Nobre e marcaram um encontro para o dia seguinte. Na data marcada, 19 de dezembro de 2023, Arthur Nobre avisa que está ligando para saber se Edimar Filho vai apresentar Noelle Araújo, que naquele momento se encontrava na condição de foragida (havia mandado de prisão contra ela). Na continuação da conversa entre os delegados Arthur Nobre e Carlos Daniel Castro sobre a apresentação de Noelle Araújo, Arthur Nobre afirma: "Melhor fazer o negócio com o advogado, ganhamos menos, mas é mais seguro". Em resposta, Daniel Castro concorda: "Sempre".
Apurou-se que Arthur Nobre e Daniel Castro solicitaram a Noelle Araújo, por intermédio de seu advogado Edimar Filho, o repasse de R$ 350 mil para não pedirem a conversão da prisão temporária em prisão preventiva. No dia 20 de dezembro, Arthur Nobre e Edimar Lira Aguiar Filho conversam sobre a audiência de custódia de Noelle Araújo. O advogado solicita ao delegado que distribua o cumprimento do mandado no plantão, já que o juiz plantonista Jacob Farache não tinha acesso aos autos do processo. Por áudio, Edimar Filho explica a situação a Arthur Nobre, que afirma que enviaria a informação ao e-mail do plantão.
No dia 21 de dezembro de 2023, Arthur Nobre envia mensagem a Edimar Filho dizendo estar "no aguardo" — "Tmj" (referindo-se ao repasse de valores). O advogado responde: "Vou só tirar", "Tá pra 14h" (referindo-se a um saque agendado), e avisa: "Umas 15h, vou aí com o senhor". Por volta das 15h, conforme ajustado, Edimar Filho avisa que está indo ao encontro. Em seguida, reforça: "Fique tranquilo", "Assim que eu pegar amanhã o resto, vou aí", "15h", "Marcaram". Após o acerto do repasse, Arthur Nobre passa a atuar em conjunto com Edimar Filho em diversas estratégias de defesa para evitar a conversão da prisão temporária em preventiva.
Com efeito, o advogado protocolou pedido de revogação da prisão temporária de Noelle Araújo, em regime de plantão, no dia 22 de dezembro de 2023. Na sequência, pediu a Arthur Nobre que intervisse junto ao promotor de justiça Gerson Daniel e ao juiz Flávio Sanches — ambos plantonistas — para obter a imediata liberdade da influenciadora. No mesmo dia, Edimar Filho avisa que o Ministério Público havia solicitado a manifestação de Arthur Nobre sobre o interesse ou não na liberdade provisória de Noelle. Nobre se compromete a encaminhar petição manifestando desinteresse na manutenção da prisão temporária.
Diante de dificuldades relatadas por Edimar Filho para realizar o saque, o delegado avisa: "Vou mandar uma conta" — referindo-se à conta usada por Andreza Souza, principal gestora das propinas recebidas por Arthur Nobre. Após deletar a mensagem, em 22 de dezembro de 2023, Edimar Filho informa: "Aqui tem 120" (R$ 120 mil), "na hora", "top", seguido de áudio explicando que o saque estava provisionado, mas houve problema no banco. Na sequência, o advogado envia prestação de contas: dos R$ 350 mil acertados, já havia entregue R$ 85 mil no dia anterior e tinha mais R$ 120 mil disponíveis em espécie.
Em resposta, no mesmo dia, Arthur Nobre pede: "Pode mandar o total aqui" — referindo-se ao valor remanescente de R$ 145 mil — e envia chave pix cadastrada em nome de Andreza Maia de Souza. O conjunto de diálogos comprova que Arthur Nobre, em razão do cargo de delegado de polícia, solicitou vantagem indevida a Noelle Araújo, por intermédio de seu advogado, para evitar a prorrogação ou conversão da prisão temporária. Paralelamente, Arthur Nobre pede a Andreza sua conta bancária para depósito e posterior saque em espécie dos R$ 145 mil. Em áudio, pergunta:
"Irmã, se eu depositar 145 mil na sua conta não vai dar problema? Tu consegue provisionar até quarta-feira?"
Após a confirmação de Andreza, Arthur Nobre envia os dados bancários e a chave pix, e pede que Edimar Filho envie o comprovante. O advogado envia comprovante de R$ 50 mil transferidos à conta de Andreza e avisa que não conseguiu enviar o valor total por conta do limite excedido, prometendo tentar por outra conta. Em seguida, avisa que "falta 95" e que vai "dar um jeito". Envia novo comprovante, de R$ 10 mil, dessa vez a partir de conta associada à pessoa jurídica E L Aguiar Filho Ltda ME, sob controle de Edimar Filho. Por áudio, explica que pretendia enviar R$ 70 mil, mas conseguiu apenas R$ 60 mil, após tentativas sucessivas.
Ainda no dia 22, Edimar Filho envia a petição solicitando a manifestação de Arthur Nobre sobre o pedido de liberdade provisória de Noelle, conforme combinado. Arthur Nobre encaminha a petição a Bernardo, orientando:
"Imprime isso e recebe com data retroativa depois, tá? Por favor."
Em áudio posterior, Edimar Filho afirma "é parceiro com quem é parceiro" e chega a oferecer sua casa em Salinas para que o delegado passasse o Natal. Avisa que enviaria o restante do dinheiro no dia seguinte. No dia seguinte, Edimar Filho informa: "Mandei mais 25 agora" e diz que enviaria o restante após cadastrar a biometria da esposa, ou, caso não conseguisse, da própria conta. Depois, envia imagem apagada seguida de "The End", avisando que não conseguiu concluir a transferência pela conta da esposa por limite excedido.
A quebra do sigilo bancário de Andreza Maia de Souza comprovou que Arthur Nobre e Carlos Daniel Castro efetivamente receberam o saldo remanescente de R$ 145 mil dos R$ 350 mil acordados com Edimar Filho. Os extratos mostram depósitos de R$ 60 mil em 22 de dezembro e R$ 85 mil em 26 de dezembro, totalizando os R$ 145 mil informados. Os depósitos partiram das empresas E L Aguiar Filho Ltda (R$ 120 mil) e D S Consultoria (R$ 25 mil), a primeira em nome de Edimar Lira Aguiar Filho.
No dia 24 de dezembro de 2023, Arthur Nobre solicita a Andreza Maia o envio de R$ 8 mil à conta de Renata Gomes de Araújo, esposa do promotor Luiz Márcio Cypriano. O restante do valor foi sacado em espécie e transferido a terceiros, entre eles Davi Jonatas Brito Neves (R$ 35 mil), conforme extratos. Na mesma data, Davi Jonatas efetuou o pagamento de fatura de cartão de crédito da promotora de justiça Juliana Pinho Nobre, esposa do delegado Arthur Nobre, no valor de R$ 33.253,86.
No dia 28 de dezembro de 2023, o servidor Bernardo envia foto de contrato de compra de veículo em nome de Géssica Meireles Lopes (também investigada na operação) e Arthur Nobre pergunta: "Eles querem resolver" — referindo-se a repasse de valores. No mesmo dia, Nobre solicita que Bernardo deposite R$ 5 mil, de forma fracionada, na conta de sua esposa. Bernardo informa ter deixado "10 fechado" com Higor Damasceno, que também realizaria depósito. Identificou-se que Higor transferiu R$ 5 mil à conta da promotora Juliana Pinho.
Ainda no dia 28, o DPC Dilermando Dantas envia mensagem cobrando Arthur Nobre, que responde estar no aeroporto e afirma: "Não estou fugindo do senhor." Em áudio, Nobre diz a Dilermando Dantas:
"Nunca pense que eu vou me queimar por causa de 10, 20, 30 mil, tá bom? Chefe, presta atenção, eu sou um cara leal, como eu falei pro senhor... podia nem ter colocado, mas coloquei, chamei... toda operação que eu faço, eu lhe chamo, toda, toda, toda, toda. Até porque o senhor teve consideração comigo, de me chamar pras operações do Paysandu, mesmo eu não gostando desse time horrível. Mas assim, eu valorizo pra caralho isso. Então assim, nunca pense que eu vou me queimar por causa de 10, 20, 30 mil, tá bom? Não pense isso, eu tô lhe falando sério, de homem pra homem, de delegado pra delegado, apesar de eu ser mais novo, tá bom? Nunca pense isso, e nem tô me escondendo do senhor, pelo contrário, gosto pra caralho do senhor."
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