O Arthur Nobre. O Acidente na Doca. A Dona Lourdes. Os R$ 50 Mil de Propina. O Promotor Marcio Luiz. Os "Pobres" e os Xingamentos
Na matéria de hoje sobre os escândalos envolvendo promotores de justiça e delegados da Polícia Civil do Pará, O Antagônico revela detalhes de uma tentativa de suborno ocorrida em janeiro de 2024, após um acidente de carro na Doca de Souza Franco, no centro de Belém. Na madrugada de 23 de janeiro daquele ano, o motorista de aplicativo Leonardo Wesley Beltrão Guimarães atropelou Fábio dos Santos Pereira, que corria na avenida Visconde de Souza Franco. Conforme investigação da Procuradoria-Geral do Ministério Público do Pará em conjunto com o Gaeco, Leonardo Wesley e seu pai, Márcio Roberto Guimarães, foram vítimas de pedido de propina feito pelo delegado Arthur Nobre e pelo promotor de Justiça Luiz Márcio Cypriano. O pedido teve a participação dos advogados Afonso Filipe Pereira da Silva e Caio José Cavalleiro de Macedo. Arthur Nobre foi o delegado responsável pela apuração do atropelamento, que ganhou grande repercussão à época.
No dia do acidente, Arthur Nobre enviou a Luiz Márcio a filmagem do atropelamento. Em seguida, o inquérito foi arquivado por Arthur Nobre após requisição nominal expedida por Luiz Márcio Teixeira Cypriano e direcionada ao delegado. No dia seguinte, Luiz Márcio Cypriano enviou um print de mensagem trocada com um repórter, solicitando que ele desse entrevista sobre o atropelamento; Arthur Nobre o orientou a conceder a entrevista e disse ter sido ele quem havia passado o contato de Luiz Márcio ao repórter. No dia 25 de janeiro, Arthur Nobre enviou um áudio a Luiz Márcio Cypriano informando que o repórter entraria em contato. Ainda naquele dia, Luiz Márcio Cypriano encaminhou o vídeo da entrevista que havia dado a um programa de televisão. Em seguida, Arthur Nobre enviou uma foto do veículo envolvido no atropelamento e informou que o pai do motorista estava sendo levado à delegacia. Em resposta, Luiz Márcio Cypriano o orientou a apreender o veículo. Ainda no dia 25, Arthur Nobre informou que "Alexandre" queria que fosse pedida a prisão preventiva do motorista, e os dois combinaram de dar uma entrevista coletiva na sede do Ministério Público. Arthur Nobre enviou, então, links de matérias jornalísticas sobre o caso, e Luiz Márcio Cypriano enviou uma manifestação usada em caso anterior para que ele fizesse o pedido de prisão preventiva:
"Mete ficha e deixa comigo no fórum", disse o promotor.
No dia 26, Arthur Nobre enviou uma mensagem dizendo:
"Acho que o senhor tem um terceiro sentido."
Ele informou que a tia do motorista (identificada como Dona Lourdes) havia trabalhado em sua casa e o procurou pelo Instagram para conversar sobre a investigação. Em seguida, Arthur Nobre enviou uma série de áudios de Dona Lourdes, nos quais ela relata que houve um pedido de propina de R$ 25 mil pelos policiais aos familiares do motorista, no momento da apreensão do veículo, e pede que Arthur Nobre reduza o valor, pois a família não tem condições de pagar. Leia trechos das mensagens enviadas por Dona Lourdes:
"Arthur, estou morando aqui em Belém. Eu queria saber o telefone da tua mãe, que eu estava doida para falar com ela, rapaz. Desde que eu saí de lá, perdi o telefone de vocês. E agora, de repente, surge uma oportunidade de falar contigo, porque... sabe esse acidente que teve lá na Doca? O rapaz que bateu no outro... ele é meu sobrinho, filho de uma sobrinha minha. Eu estava hoje lá na casa dela, e foram buscar o carro dele, só que eu não estava lá na hora."
"Aí eu vi, estava passando no jornal, e eu te vi. Eu disse: 'Ulha, eu conheço, é o Arthur.' Só deixa eu te falar uma coisa: eu ia até amanhã aí, contigo, para conversar sobre isso, porque a mãe dele me falou que você pediu um valor muito alto para eles pagarem — parece que 25 mil — e eles estão sem dinheiro. Eu cheguei lá e estava até falando umas besteiras para ela, e ela estava desmaiando por causa disso que aconteceu. Aí eu disse a ela que conheço você desde bebezinho, desde criança, que morei com a sua mãe, trabalhei lá, fui para Mosqueiro com você, passei um tempão em Mosqueiro com você. Aí ela pediu que eu falasse contigo, Arthur, se tu dá uma quebrada, mano, nesse preço, porque o pai dele está desempregado, ela também está desempregada, ela trabalha vendendo lanche na frente da casa, faz coxinha, essas coisas... e era só ele que trabalhava, de noite, no Uber."
"Aí aconteceu esse acidente agora com ele, e eles estão sem dinheiro para pagar esse valor que vocês estão pedindo. Ela pediu que eu conversasse contigo, para ver o que tu podia fazer — nem por ela, mas pela nossa amizade — para diminuir um pouco esse valor, porque está muito alto e ela não tem condições de pagar. E parece que ela tem que pagar até segunda-feira, e ela está sem condições."
Em depoimento ao Ministério Público, Leonardo Wesley confirmou que houve pedido de propina. Já Márcio Guimarães, pai de Wesley, foi mais contundente ao afirmar que o delegado Arthur Nobre, ao passar por ele dentro da delegacia, disse:
"R$ 50 mil ou eu fodo a vida dele", em referência a Wesley Beltrão.
Ainda de acordo com a investigação do MP, os advogados Afonso Filipe e Caio Ferraz conversaram reservadamente com o delegado Arthur Nobre e retornaram informando que ele estaria irredutível e que o valor de R$ 50 mil deveria ser pago até o sábado seguinte. Como o pedido de propina não surtiu efeito, o delegado informou ao promotor Luiz Márcio Cypriano que estava fazendo a representação de prisão preventiva para protocolar no dia seguinte. Em resposta, Luiz Márcio Cypriano fez um xingamento:
"PQP. Não tem exceção. Pobre é foda."
E orientou Arthur Nobre a fazer o pedido de prisão preventiva, não conversar mais com ninguém e colocar outro delegado para recebê-los. Demonstrando preocupação de que Arthur Nobre tivesse sido gravado durante o pedido de propina, Luiz Márcio Cypriano perguntou:
"Você baculejou os advogados que foram com você? Eles não estavam gravando? Vamos nos cercar de todas as cautelas." "Mete amanhã esse pedido de prisão. O fundamento já te dei na peça que passei."
Em resposta, Arthur Nobre disse a Luiz Márcio:
"Fica tranquilo. O advogado é o filho do juiz Jackson. De confiança" — referindo-se a Caio José Cavalleiro de Macedo Ferraz, filho do juiz Jackson José Sodré Ferraz.
Na sequência, Luiz Márcio — apesar de ter declarado "menos mal" ao saber que um dos advogados era Caio Cavalleiro de Macedo Ferraz — orientou Arthur Nobre a "cortar o papo", isto é, deixar de exigir vantagem indevida da vítima Leonardo Wesley Guimarães. Ele também o orientou a não conversar novamente com Dona Lourdes até que houvesse uma decisão:
"Acabou o papo até sair essa decisão. Ninguém tem bola de cristal. Mas lidar com pobre é uma merda. Fazem escândalo. Rico fica na dele."
Em resposta, Arthur Nobre disse:
"Eu aprendi isso com o senhor, kkk. Pobre é foda. PQP."
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